Eu estou a estudar português e eu fiz um pequeno comentârio sobre as minhas primeiras leituras. Cá o comparto:

As minhas leituras em português: comentários e impressões:
embora tentarei de não estragar-lhos.
[Atenção:
Agora, eu sou estudante de língua portuguesa com nível credenciado
A2, não mais; estou a estudar para o nível B1. Os meus interesses
são: engenharia agrícola e ambiental, a natureza, literatura e
cinema de terror, ficção científica, história e divulgação
científica; línguas como inglês, grego antigo; músicas como
garagem e rock psicadélico; tópicos meus são Alien, Star Trek, o
punk ou o comunismo.]
Comecei
a ler livros em português no curso passado. Comecei com Contos
exemplares de Andresen. Neste curso estou a ler Contos de
Eça de Queirós, e Saramago A viagem do elefante e Viagem
a Portugal, e Marco Neves História de português desde o Big
Bang. Compro os livros em papel porque gosto de sublinha-los com
lápis e de anotar as palavras que ainda não compreendo. Quando
estou a ler tenho a mão o telemóvel com a web priberam.org para
consultar palavras.
Contos
exemplares,
Sophia de Mello Breyner Andresen,1962
Uma
introdução Pórtico onde Andresen escreve de filosofia e
religião.
O
primeiro conto e o mais interessante e longo é O jantar do Bispo,
onde um bispo vai a jantar à casa de um homem rico; o bispo quer
pedir dinheiro para arranjar o teto de uma antiga igreja e o homem
rico quer pedir que o bispo mude o cura da aldeia, Varzim, um cura
que vivia pobremente e pregava a caridade. O homem rico crê que
caridade é dar esmola mas o cura de Varzim fala outra coisa os
domingos na igreja. É um conto de magia e de demónios, mais também
discutem-se questões sociais e políticas do século XIX; a igreja
católica é muito presente. O conto é de uma extraordinária beleza
poética: depois de ler a frase O brilho da noite fazia luzir os
azulejos azuis eu quero falar português. O conto lembra-me 'A
floresta animada', livro de contos de Wenceslao Fernández Flórez,
1943.
Eu
disse magia e não religião, porque acredito que eventos
aparentemente sobrenaturais devem ser explicados por meios naturais,
assim como Anne Radcliffe justifica por causas naturais os
acontecimentos estranhos no romance gótico. Acho que Andresen aceita
as explicações sobrenaturais. Há muito que dizer da relação dos
grandes escritores portugueses e a Igreja Católica (também para Eça
de Queirós).
O
segundo conto A viagem desenvolve um tema típico de ficção
científica: O tempo que corre em velocidades diferentes em universos
diferentes. Como no filme de 2018 Parallel (Dimensão
paralela) mas eu acho que esta ideia é velha, tanto como na lenda
japonesa de Urashima Taro: um pescador japonês que um dia
salvou uma tartaruga e no dia seguinte é levado para o fundo do mar
donde o pai da tartaruga (que é o Imperador do Mar) quer vê-lo e
agradecer-lhe. Taro encontrou-se com o Imperador e a sua filha (a
tartaruga). Taro ficou no palácio e muitas festas foram feitas; até
que o tempo passou e começou a sentir saudades da sua terra e quis
voltar. Ao partir, a princesa deu-lhe uma caixa de presente que não
deve de ser aberta até que ele fora muito velho. Taro chega a sua
aldeia mais não conhece nada nem a ninguém, tudo foi mudado.
Desesperado, na praia, ele abre a caixa e uma nuvem branca lhe
devolve os anos perdidos, de repente ele envelheceu e morreu. Mais de
cem anos se passaram.
O
terceiro conto Retrato de Mónica é sobre uma mulher muito
confiante, uma mulher perfeita. E tem muita ironia. Acho que
poderia ser uma vingança para alguma mulher que Andresen conhece;
Andresen diz Ela põe a sua inteligência ao serviço da
estupidez. Ou, mais exatamente: a sua inteligência é feita da
estupidez dos outros.
O
quarto conto Praia é muito poético. Tem um ar de tempo
perdido e imagens congeladas que lembra-me ao romance A invenção
de Morel de Adolfo Bioy Casares, 1940. Hã uma referência à
guerra e a uma batalha em outubro de 1942. Na penúltima página há
uma frase Os homens: οἱ ἀνθροποι; o seguinte conto
intitula-se Homero e o seguinte O homem, creio que não
é uma coincidência; Andresen sabe montar um livro.
O
quinto conto 'Homero' é poesia pura, prosa poética autêntica,
lembra-me ao Platero e eu de Juan Ramón Jiménez, 1914. É a
história de um encontro na casa da praia de Andresen menina com
Búzio, um vagabundo.
O
sexto conto O homem é outro conto religioso, Andresen viu um
homem pobre caminhando pelo centro da cidade, onde mais pessoas há;
ele caminhava muito devagar, rente ao muro, um homem muito belo, com
uma criança no colo, o fato descolorido, ele comido pela fome,
sozinho, cheio de sofrimento e solidão, mirando para o céu. Eu
pensei em Jesucristo e na penúltima página, Andresen lembra-se de
uma cita, Mateo 27:46, é Jesucristo!, sofrente e sozinho.
O
sétimo conto Os Três Reis do Oriente é outro conto
religioso e filosófico, é uma versão alternativa da história dos
três magos do Oriente que chegam a Belem para adorar ao menino
Jesus; cada uno dos reis tem a sua própria história, onde se fala
de deus e dos homens, da estrela de Oriente. Ao final do conto, liga
de novo o tema da doutrina social da Igreja, fecha o círculo aperto
com o primeiro conto.
Contos,
Eça de Queirós, 1902 (póstumo).
[Só
comento os contos que eu li inteiros e que gostei deles]
Singularidades
de uma Rapariga Loura é um conto quase romântico, eu pensei ao
início, mas depois de ter lido eu vi o filme com o mesmo título, de
Manoel de Oliveira, 2009, e eu vi o conto com outros olhos. Acho que
lembra-me dos romances de Benito Pérez Galdós.
No
Moinho é a história de
uma mulher casada com um homem doente, os seus filhos também estão
doentes; a mulher não acha felicidade na vida embora seja muito
devota até que aparece um parente da cidade. Poderia ser um conto
romântico, mas lembra-me do conto O castelhano velho de
Mariano José de Larra e do esperpento ou grotesco de
Valle-Inclán. Também poderia ser um conto galante de Guy de
Maupassant, mas hã tanto grotesco que não se crê; e neste conto hã
palavras que não estão no dicionário Priberam; acho que são
palavras antigas, usadas de propósito para dar um ar velho. É uma
história de rir muito.
Poderia
ser que Eça de Queirós está a rir-se das pessoas das aldeias, ou
das pessoas devotas e da Igreja Católica, ou das pessoas galantes
dos contos de Guy de Maupassant, ou de todos eles juntos.
Civilização,
outro conto grotesco, também de rir muito. Um homem de cidade
acostumado as comodidades y aos aparatos técnicos, viaja a sua
aldeia, e os seus costumes colidem com a simplicidade e honestidade
dos aldeões.
O
Tesouro é um conto de ação, na Idade Média, três irmãos têm
a sua casa em ruína, sem pais, sem dinheiro, sem nada que comer; mas
eles acham um tesouro e começa um jogo perigoso entre eles. Hã
traição, violência, espadas, mortes, voltas inesperadas, parece um
velho filme de Quentin Tarantino.
O
Defunto é a minha história favorita. Parece ao primeiro uma
história romântica, lembro-me das Lendas de Gustavo Adolfo
Bécquer, e sim, lembro-me mais quando a história toma um ar de
terror, lembro-me de A montanha das almas. Cá temos um
autêntico conto de terror, dá arrepios; acho que poderia estar
publicado nos livros do editorial Valdemar em Espanha, creio que
ainda não foi.
A
viagem do elefante, José Saramago, 2008.
Uma
história muito engraçada baseada em um feito verdadeiro: o rei de
Portugal regalou um elefante para o arquiduque de Austria no século
XVI e o elefante viajou desde a Torre de Belém (preto a Lisboa) a
Viena; e eu não estrague a história, isto se conta na primeira
página. Saramago escreve com muita graça, está a rir dos seus
personagens, do viagem, de tudo. E tem muita ironia: o meu passagem
favorito é quando um cura de aldeia quer exorcizar ao elefante e diz
aos aldeões: Amanha, antes que o sol nasça, quero toda a gente
no adro da igreja, eu, vosso pastor, irei na dianteira, e juntos, com
a minha palavra e a vossa presença, pelejaremos pela nossa santa
religião, lembrai-vos, o povo unido jamais será vencido.
Hã
um respeito pela religião e pela Igreja Católica muito grande em
Eça de Queirós e em Andresen. Lembro-me que em Portugal além do
mais da cultura religiosa e do poder da Igreja, havia censura. Isto é
diferente com José Saramago, ainda mais quando escreve depois do ano
1974 que já não hã censura em Portugal.